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Recife (PE)
Atualizado em 12.07.2025
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Elyanna Caldas

N. 27 de Setembro de 1936
F. 12 de Junho de 2025
Por Rodrigo Diniz

Elyanna Caldas Silveira Varejão (27/09/1936) é natural de Recife, onde cedo iniciou os estudos musicais com as irmãs Hilda e Nysia Nobre, sendo mais tarde aluna de Waldemar de Almeida. Realizou seu primeiro recital de piano aos 10 anos de idade no Teatro de Santa Isabel e, aos 18 anos, em 1955, participou do V Concurso Internacional Frederic Chopin, na Polônia, sendo, na ocasião, a única candidata brasileira presente ao certame. Em 1956, obteve o 2º prêmio do Concurso Rádio Ministério de Educação do Rio de Janeiro (o 1º prêmio conquistado por Arthur Moreira Lima e o 3º prêmio dividido entre Gilberto Tinetti e Gerardo Parente), cujo júri era composto por nomes como Guiomar Novaes (presidente), Hermínia Roubaud, Heitor Alimonda, Antonieta Rudge, Souza Lima, Ênio Freitas e Pierre Klose. Após o êxito no concurso, realizou uma série de recitais promovidos pela Juventude Musical Brasileira nas cidades de Maceió, Itabuna, Ilhéus (inaugurando a Sociedade de Concertos) e Salvador. Em 1957, obteve o 1º prêmio no Concurso Magda Tagliaferro (Íris Bianchi, Ênio Freitas, Antonieta Rudge e Yara Bernette no júri) o que lhe valeu uma bolsa de estudos de um ano em Paris, quando foi aluna da própria Magda Tagliaferro e de Lazare Lévy. Em 1958, seguiu para Varsóvia com bolsa de estudos do Governo Polonês, especializando-se com a renomada professora Margerita Trombini-Kazuro. Na Europa, participou dos Festivais de Salzburg (Áustria) em 1957, 1958 e 1967, e, na Academia de Música de Viena foi aluna de Bruno Seidlhofer. Em 1960, além de ter participado novamente do Concurso Internacional Chopin, obteve o 3º prêmio do II Concurso Nacional de Piano da Bahia, tendo sido avaliada por um júri composto por nomes como Jacques Klein, Pierre Klose, Souza Lima, Waldemar de Almeida, Ondina Dantas e Maria Augusta Morgenreuth e tendo Eduardo Hazan (1º prêmio) e Antônio Guedes Barbosa (2º prêmio) como concorrentes. Nesta ocasião, foi solista do 4º Concerto de Beethoven com a Orquestra Sinfônica da Reitoria da Universidade da Bahia, sob a regência do maestro Souza Lima. Voltou à Europa entre 1967/1968 para novos cursos, desta vez ligados à Pedagogia Pianística, tendo se Licenciado em Música pela École Normale de Musique de Paris (1968) na classe de Jeanne Blancard e, mais tarde, entre abril/junho 1997, na qualidade de presidente do Conservatório Pernambucano de Música, quando realizou estágio de observação pedagógica nos Conservatórios de Ensino Médio de Paris. Professora fundadora do Curso de Música da UFPE, ali se dedicou ao magistério por três décadas. Também foi professora e presidente do Conservatório Pernambucano de Música por duas gestões: entre 1987/1991 e 1995/1999.

Elyanna foi uma pianista de repertório vasto e eclético. Em seu repertório para piano solo, encontram-se grandes obras e ciclos completos de diversos compositores: Prelúdios completos do primeiro volume de O Cravo Bem Temperado, de J.S. Bach, todos os Prelúdios, Valsas e Improvisos, além de diversos Noturnos, Mazurcas, Polonaises, Estudos e Baladas de F. Chopin, Papillons, Cenas Infantis, Kreisleriana e Sonata em Fá# menor de R. Schumann, Sonata em Si menor de F. Liszt, Sonata No.2 e Prelúdios de S. Rachmaninoff, a obra completa para piano solo de César Franck, Prelúdios completos (Cadernos I e II) de C. Debussy, Goyescas de Granados. Como camerista, atuou tanto na arte do acompanhamento vocal (trabalhou em parceria com as cantoras Leda Coelho de Freitas e Maura Moreira nos anos de Europa), quanto a música de câmara instrumental, possuindo em seu repertório Sonatas de Mozart, Beethoven, Schumann, César Franck, as 3 Sonatas de Brahms (violino), Sonatas de Beethoven, Chopin, Brahms e Rachmaninoff (violoncelo), grande parte da obra camerística do francês Claude Bolling, repertório para flauta transversal, além de expressivo repertório de música para piano a 4 mãos e para dois pianos, fruto dos anos do trabalho em Duo com a pianista Josefina Aguiar. Em relação ao repertório para piano e orquestra, Elyanna foi solista do Concerto No.27 de Mozart, do 4º Concerto de Beethoven, Concertos No.1 e No.2 de F. Chopin (tendo executado ambos em uma mesma apresentação), Concerto em Lá Menor de Grieg, Variações Sinfônicas de César Franck, Concerto No.2 de Saint-Saëns, Concerto No.2 e Variações Sobre um Tema de Paganini de Rachmaninoff, Concerto No.1 de Shostakovich e Rhapsody in Blue de Gershwin, executados sob as batutas dos maestros Vicente Fittipaldi, Mário Câncio, Alceo Bocchino, Léo Perachi, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Eleazar de Carvalho, Carlos Veiga, Jamil Maluf, Marlos Nobre, entre outros .

Além de suas atividades como pianista solista, camerista e concertista, Elyanna atuou também como idealizadora e coordenadora de realizações artísticas, tais como o Movimento Arte e Cultura do Nordeste, que, durante cinco anos, manteve intensa atividade no Recife, os Festivais Chopin/Schumann, Liszt/Mendelssohn e Debussy/Albéniz, que superlotaram os Teatros de Santa Isabel, Teatro Waldemar de Oliveira e o teatro do Centro de Convenções da UFPE entre os anos de 2010 e 2012.

Elyanna adentrou o universo das rodas de Choro, tendo tocado com o Conjunto Pernambucano de Choro, frequentemente se lançando em busca de repertórios inusitados, tendo trazido à tona a produção de compositores do passado pernambucano, notadamente Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba), de quem deu a conhecer sua vasta obra escrita para piano, em grande parte até então desconhecida do grande público. Deste trabalho, resultou o lançamento de 2 CDs: “Simplesmente Capiba” e “Capiba (Valsas e Choros)”. Além destes, também gravou os CDs “O Piano em Pernambuco” (compositores pernambucanos dos fins do século XIX e inícios do século XX), “O Charme da Valsa e do Maxixe” (com composições de Aurélio Gregori) e Tritonis, onde toca clássicos do Jazz. Em 2011, publicou uma autobiografia intitulada “Caminhos de uma Pianista”, onde além de contar sobre sua trajetória artística, fez uma homenagem póstuma ao grande amor de sua vida, seu marido Dr. Lucilo Varejão, com quem teve duas filhas: Luciana e Carolina Varejão.

Elyanna Caldas continuou suas atividades artísticas até o fim da vida, sendo convidada para dar recitais no Conservatório Pernambucano de Música, onde organizou e tocou recital em homenagem ao compositor mineiro Edmundo Villani-Côrtes e reinaugurou o piano Steinway do CPM, dividindo palco com o pianista Eduardo Monteiro. Nos últimos anos, foi por duas vezes solista da Orquestra Sinfônica do Recife, sob a regência do maestro Marlos Nobre, além de tocar regularmente no programa Música aos Domingos, da Academia Pernambucana de Letras e em salas de concerto nas cidades de Maceió e São Paulo.